O drama do boia fria
(*) É triste mas inevitável reconhecermos, o triste papel do trabalhador "não qualificado", conduzido para o trabalho duro de lidar na lavoura, em piores condições do que gado para abate. E aí, quando acontece uma tragédia, como aquela no sul de Minas, onde morreram 14 seres humanos e 18 ficaram feridos,alguns gravemente,em quem colocar a culpa? Culpemos a "fatalidade"! Pois é,14 vidas se perderam de maneira trágica,quando iam para o trabalho, levados como uma carga qualquer, em um caminhão em estado deplorável, com 32 anos de uso! Para o DER e os órgãos de "segurança" o veículo estava(sic) legal.Legal? E as vidas que se perderam, ficarão no esquecimento? Se passaram tão poucos dias. Parece até que já foram esquecidas e não se fala mais nisso.
O Bóia Fria. A noite mal se vestiu de madrugada,
e êi-lo, trêmulo,
já no "ponto de parada"!
No bornal a tira-colo transporta seu farnel.
Olha apreensivo, algumas nuvens no céu. Estrelas poucas,
conta-as nos dedos calejados: pálidas luzes para olhos já cansados.
Pouco importa, mal aprendeu a contar!
As estrelas são para poetas e sonhadores e o cansaço não lhe permite sonhar!
Leitura nunca teve, impediu-lhe seus lavores, mas sabe bem os matizes e começa a sentir velhas dores do tempo que desfila inexorável e lento, lhe torturando com o sereno e o vento.
Tortura assoberbada ao embarcar na condução:
incômoda carroceria de um velho caminhão.
Vem agora o desconforto da viagem,
já não se sente gente, se tornou bagagem!
Tenta várias vezes, num esforço vão,
reacender a binga, que o vento apaga.
Desiste e coça a maltratada mão,
onde um velho calo se tornou em chaga!
Quando a madrugada cede lugar ao sol,
vislumbra o palco da tarefa a ser vencida.
Vê, sobre a gramínea, a névoa, frio lençol,
cobrindo o campo da batalha pela vida!
E o trabalhador sorri da sua sorte,
encara a luta,faz parte da "boiada",
faz galhofa de quem temer a morte:
(*) "-A morte está aqui, junto da gente,
pode estar numa curva da estrada,
misturada ao veneno da serpente,
escondida nos molhes secos da lida,
ou de tocaia, junto à lata com a comida
que, bem antes de lhe aquentar o dia,
é devorada como insossa "bóia fria"!"
Esta é minha homenagem, àqueles que perdem a vida ao tentar ganhar a
vida,enquanto quem realmente lucra com seu trabalho,jamais pisou em uma lavoura de café que só é alimento, para o bolso dos especuladores.








Infelizmente
É uma situação complicada mesmo. Os caminhões são desconfortáveis e inseguros, isso é fato. Mas será que é bom o DER tirá-los de circulação? Será que isso não poderia piorar a vida dessas pessoas, impedindo-as de trabalhar? Será que o uso desses veículos não ocorre por falta de opção, já que veículos novos costumam ser muito caros e carregados de impostos no Brasil?
São todas questões que têm que ser analisadas friamente antes de se propor uma medida política.
É bom lembrar que, no passado, os veículos eram até mais inseguros. E que um carro de luxo com o melhor preparo para acidentes possível não tem a menor chance num acidente contra um caminhão da década de 1970 numa estrada, normalmente fazendo perecer seus ocupantes... o que o torna extremamente inseguro nesse tipo de situação.
Só acrescentar mais sacrifícios de "boias frias"
Nas proximidades de Caratinga/MG, dois caminhões conduzindo "boias frias", que iriam trabalhar na colheita de café,se chocaram causando a morte de quatro trabalhadores e ferindo gravemente mais oito.Segundo reportagem, o acidente aconteceu em virtude dos dois caminhões trafegarem em uma estrada vicinal e o que estava atrás, ter perdido os freios e se chocado na traseira do que ia na frente.
Cabe agora a pergunta:
Mais uma fatalidade ou um claro caso de negligência, desde de quem contrata esses infelizes,em condições de semi escravidão consentida , como também dos órgãos fiscalizadores, cronicamente omissos ou mesmo relapsos, no que se refere aos trabalhadores não especializados? Tenente Vicente.