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Gesto de amor



Quando soube do acontecido, lembrei-me do filme de Roberto Benigni, A vida é Bela: nele, focalizada a Itália dos anos 40, a personagem principal, Guido, levado para um campo de concentração nazista, tenta esconder do filho menor, para que não sofra, a verdadeira situação que eles teriam de enfrentar naquele ambiente. Para isso, age como se ambos estivessem participando de uma brincadeira, de um faz-de-conta.

O avô leva o neto de 7 anos ao Ibirapuera. A criança, à beira do lago, vê um pato bem próximo: como que querendo espantá-lo, faz um gesto com o pé, chutando o ar. No movimento, o tênis se projeta para a frente e cai na água.

O menino se apavora: de repente se vê com um pé sem tênis, apenas de meia. O avô corre a socorrê-lo: pega um pequeno galho para alcançar o tênis, que se projetara para a água. Com o movimento, o pé do calçado se afasta ainda mais.

A criança chora: está com um pé descalço e quer o calçado de volta. O avô, pacientemente, tenta acalmá-lo. Não se preocupasse, pois passariam no shopping mais próximo e comprariam outro par de tênis.

A criança concorda. Chegam ao estacionamento, e o avô chama o neto para a compra. Novo problema: não iria com um pé calçado e outro descalço. Seria motivo de risos. O avô tenta convencê-lo. Teria que ser assim, já que estavam apenas os dois no carro.
Nova e outras negativas. A criança não queria ser objeto de risos, diante da inusitada situação. Não havia como convencê-lo. Criara-se um novo impasse.

Paciência sem limites, a do avô: luminosamente, surge uma idéia: ele também iria com um pé calçado e outro descalço, apenas de meia, como a criança. Esta vibra de alegria. Se fossem rir, iriam rir do avô, não dele, criança ainda; ou de ambos.

E lá se vão os dois, shopping adentro, mãos dadas carinhosamente, rindo agora da situação, sem se importar com os olhares curiosos dos que passavam, logicamente sem entender a estranheza da cena: o adulto e a criança, alegres, caminhando naturalmente, ambos com um dos pés descalço.

Pensassem o que pensassem. O importante: resolver o problema, sem que o neto passasse por nenhum constrangimento.
O amor tem dessas coisas...

NOTA: A paciência de meu irmão, Luiz Gonzaga Hueb, com o neto Felipe, é prova de que gestos de amor conseguem resolver qualquer problema.

*Educadora do Colégio Nossa Senhora das Graças. Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. thuebmenezes@hotmail.com