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Carne de Cabrito
Durante a semana toda, a Mercearia Martins ostentou, na sua seção de carnes, um belo cartaz:
"A PARTIR DE SEGUNDA-FEIRA TEREMOS CARNE DE CABRITO"
Arrumado tudo, só não conseguiram encontrar quem matasse os bichos.
Dando uma esmola a conhecido mendigo das redondezas, seu Martins perguntou-lhe:
- Não sabe quem mata cabrito por aí?
- É só pra matá?
- É
- Então, falô com o home. Quanto é que o senhor paga?
Martins olhou o mendigo de alto a baixo. Mediu. Pensou.
- Pago nada, não. Dou a cabeça e os miúdos.
- Negócio fechado.
Eles moravam num enorme terreno vago, cheio de capim e ervas inúteis, que o povo chamava de "buraco do Jerominho". Ao fundo, uma goiabeira debaixo da qual faziam suas necessidades. Era um barraco de folhas de lata encostado ao muro alto de uma oficina que cheia de ruídos de dia e um gostoso silêncio noturno. Jerominho vivia ali, no meio daquela macega, há muito tempo, com a Sinhana Véia. Não era muito longe do centro da cidadezinha. Sinhana Véia catava cereais na frente das máquinas beneficiadoras. Vivia resmungando, um cachimbo de barro preso no canto esquerdo da boca. Esguichava pelo outro canto uma cusparada marron. Pedinchava, mas pouco que o povo tinha medo dela achando-a meio doida, modo de falar sozinha, cuspinhar e mordiscar o cano do pito. No terreno baldio, sentava-se com as pernas arreganhadas, vestido comprido puxado até os tornozelos. Ficava reclamando da vida. Arrumava uns gravetos. Fazia fogo.
Jerominho pedia. Era a sua função. Sinhana Véia fazia o caldo com o que tinham. Reclamava e cuspinhava.
- Eta miséria.
Jerominho concordava.
- Roça era mió.
- Era a mesma miséria. E tinha muito trabaio.
- Mas tinha também o capadinho no cercado. As galinha sorta. Um pezinho de cove. Mandioca.
Jerominho balançava a cabeça.
- Quem dera que a gente pudesse vortá.
- É.
De noite, cansados da esperança, deitavam no chão forrado com papelão, embalagens de geladeiras e, como dizia o velho sambista gaúcho, misturavam os cabelos brancos e dormiam.
- Eta miséria!
Os ratos perambulavam pelas touceiras e, vez em quando, arriscavam um passeio pelo barracão sem porta. Tempo perdido. Não havia o que roer, mas as patinhas buliam no papelão e Jerominho acordava.
- Ôa, cambadinha de ladrão!
Batia com a mão no papelão e os bichinhos sumiam para o mato.
- Eta miséria!
- Ói, dona Sinhana Véia, o moço ali da venda vai trazer, de noite, uns cabrito pra gente matá. Dá pra nós a cabeça e os miúdo.
A mulher cuspinhou de lado.
- Assim que o bicho chegar, eu mato ele. Deixo pindurado aí. De madrugada, tiro o coro, a barrigada, os miúdo, a cabeça. E, em antes de começá os movimento da rua, o home diz que vem buscá.
De noitão, chegou o cabrito. Nem não foi o Martins. Foi um empregado. Veio amarrado numa corda. Mal o homem se foi, já o Jerominho chegou a lamparina perto do bicho. Segurou a corda bem curtinho e, zaz! cortou-lhe a garganta. Ah! nem berrou. Pendurou o cabrito num galho da goiabeira e foi dormir. Primeiro galo que cantou já estava enfiando um canudo de mamona no couro, soprando e batendo para desgrudar da carne. Daí a pouco o couro estava estendido num galho e o bicho, sem entranhas e sem cabeça, pendurado num outro.
O guarda-noite do posto de gasolina largou às cinco e passou defronte ao buraco do Jerominho justo na hora em que ele recolhia a sua parte para dentro. Parou e olhou aquela coisa vermelha, esfolada, lá dependurada. E se foi indignado. Mais um pouquinho, chega outro portador do Martins que vinha buscar o cabrito. Levou. O couro também. Couro seu Martins queria.
Tarde fresquinha, o guarda-noite papeando no boteco e dizendo o que tinha visto.
- Gente, pois não é que eu sei do fim do cachorro da dona Ferdinanda? Jerominho comeu. Hoje de madrugada, ele tava lá, pindurado na goiabeira, já sem couro e sem cabeça. O véio tá ficando louco ou tá passando muita fome. Tesconjuro! – e cuspiu enojado.
- Cê tem certeza?
- Tenho, uai. Eu passei lá, hoje cedinho, e vi com estes olhos que a terra há de comer. Santa Luzia me fure os olhos se eu estiver mentindo. O cachorro tava lá dipindurado.
- Essa história tem sentido. Já não é o primeiro cachorro que some por estas redondezas.
- Pois eu não tô dizendo? Jerominho tá comendo...
- Cê contou pra dona Ferdinanda?
- Não contei porque não deu tempo. Dormi, né? que um cristão precisa de descanso. Passo a noite inteira de olho aceso ali naquele posto excomungado. Deixa eu tomá a saideira que eu vô lá, é já-e-já.
Foi.
Dona Ferdinanda enfiou os dedos na cabeleira rala, esbranquiçada.
- Ah! Eu vou dar parte! Isso é um absurdo! Aqueles vagabundos duma figa comerem o meu cachorro? Pois é já que a polícia vai ter que tomar uma providência.
Correu para o telefone.
A rapa chegou. Já pegaram o Jerominho e foram empurrando. Sinhá Véia, os olhos arregalados, acocorada na frente do barraco. Nem cuspiu.
- Eta miséria!
- Mas eu não fiz nada, sô soldado.
- Véio sem vergonha! Cê num tem nojo, não, coisa ruim!
Jerominho assustado, rugas interrogando, olhos estranhando, sem reação, sem nem saber "o que foi que eu fiz?".
- Trem porco!
Tinha que ser mesmo. Morando naquela imundície. Crime ser miserável?
Mas a estranheza era tanta na cara do velho que o policial explicou:
- Cê tá matando e comendo a cachorrada da vizinhança. Véio porco!
Sinhana Véia contorceu o mapa da cara enojada e cuspinhou a sarreira.
- Eco!
-Tô não, sô poliça.
- Tá, o povo viu. Dá prova. Inda onte cê matô o cachorro da dona Ferdinanda. Teve gente que viu ele pindurado aí nessa goiabeira.
Aí, Jerominho suspirou aliviado. Estava desfeito o equívoco.
- Eta, gente! Quem viu se enganô. Não era cachorro, não. Era cabrito. Ali pra venda do seu Martins. Ele combinô comigo – eu mato em troca da cabeça e dos miúdo. Pode perguntá pra ele.
Soldado olhou de soslaio, ofendido.
- Cê é besta, véio à toa. Minganá? Então um home de bem, que nem seu Martins, vai mandá ocê matá cabrito pra ele, aqui, em cima dessa bostaiada empestada, co'essa rataiada, essa sujerama toda aqui? A mercearia mais limpinha da cidade? De maior respeito e hingiene?
- Óia lá, óia lá – num é sô Martins? É só perguntá pra ele.
Soldado perfilou-se.
- Dá licença, sô Martins? Esse véio porco, comedô de cachorro, tá dizendo que o senhor mandô ele matá cabrito pra sua mercearia aqui no meio desse chiqueiro. Verdade?
Martins, insultado, olhou desprezivamente para o velho que sorria confiante aguardando a confirmação do combinado. Voltou-se para o policial:
- Eu, hein?
- Muito obrigado e me adiscurpe, sô Martins.
O merceeiro afastou-se tranqüilo.
Sinhana Véia tirou o pito sarrento do canto da boca arriado, debochado, descrente.
- Eta miséria!
Ooo0ooO
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