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Um assunto oportuno: a coragem



Há ocasiões em que o articulista passa por momentos de angústia, à procura de um tema a ser abordado no espaço semanal ou diário que um jornal lhe concede.

Em compensação, se é que podemos assim dizer, há momentos em que os assuntos pululam na cabeça do escrivinhador e ele fica mais angustiado, pois sua escolha pode não recair sobre um tema ideal e a oportunidade para a abordagem de algum outro, também importante, pode ser perdida.

Uma vez feitas essas colocações, e notando que um assunto interessante já vai perdendo a oportunidade de ser abordado em razão da relevância de diversos outros, optamos por tratar do que taxaremos de coragem dos infratores.

É isso mesmo, caríssimos leitores. Os infratores são mesmo corajosos, audaciosos. E vão ficar mais audaciosos, agora que têm notado um movimento a seu favor, pois é evidente que depois que algemas apareceram nos punhos de infratores ricos, elas deverão ser abolidas no ato da prisão de pessoas, desde que, de maneira clara, não apresentem riscos à sociedade. Desviar milhões de reais não é risco algum para a vida de ninguém, convenhamos. Também as escutas telefônicas vão ser, como se cogita nas altas esferas, muito bem controladas. É que as escutas feitas de modo, digamos, abrangente, estão pegando pessoas importantes demais em vários setores da vida pública. Pontos para os infratores, portanto.

E onde está a coragem dos infratores? Há tempos que as escutas telefônicas permitem que a Polícia Federal, com uma eficiência notável, desmantele fortes quadrilhas ligadas aos mais variados aspectos da criminalidade. Pois, mesmo com toda a publicidade feita quando da prisão de cada leva de prisioneiros, os quadrilheiros continuam a agir na mais absoluta normalidade, isto é, continuam metendo a mão no dinheiro público, falsificando documentos, lesando a Previdência, trabalhando como nunca na Internet para desviar dinheiro dos outros para o próprio bolso, fraudando balanços nas empresas, agindo com astúcia nos setores da saúde pública e de toda atividade humana, enfrentando a polícia à bala... talvez já cientes de que suas conversas ao telefone estejam sendo gravadas. São ou não são corajosos os infratores?

Esperam com a certeza de que nunca chegará a vez deles ou, se for o caso de serem pegos, sabem que têm muito dinheiro para contratarem bons advogados a fim de ficarem livres, de alguma forma, de penalidades maiores.

Fizemos um elogio à atuação da Polícia Federal e achamos que muito devemos à instituição, que é respeitada pelos infratores. Ainda repercutem as declarações de um grande criminoso do colarinho branco sobre a importância da Instituição: “Só tenho medo da Polícia Federal, pois lá em cima a gente se arruma!” Foi com esses dizeres que o meliante mostrou o seu temor pela Polícia Federal e o seu desrespeito pela área lá de cima, que não se sabe bem do que se trata.

A coragem dos infratores se deve à certeza da impunidade aliada à esperança de eles não caírem nas garras da Polícia Federal e, além disso, ao fato de eles saberem que podem contar com uma ajuda de alguém lá de cima.

Como o pensar nada custa, fico imaginando como seria ótimo aproveitar a coragem e inteligência dos malfeitores direcionando-as para a prática do bem comum.