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Corações sem Deus
Ouvi, há tempos, uma narrativa sobre a criação do mundo, mais ou menos assim: “Então Deus acabou de criar todas as maravilhas do universo e descansou. E eis que um anjo, bem próximo Dele, resolveu fazer um questionamento sobre a portentosa obra recém-criada:
_ Senhor, vejo toda a Grande Obra e noto uma situação um pouco estranha. É que, por toda parte, aparecem desertos, vulcões, terremotos, secas, tempestades, e num ponto nada disso está programado.
E o Senhor, com tranqüilidade, fez oportuno esclarecimento:
_ Você vai ver o povinho que eu vou colocar lá!”
E o tal local paradisíaco era justamente o Brasil.
Nestes últimos tempos estamos notando mudanças visíveis no clima do país. Tempestades violentas causando destruição e mortes, terremotos às dezenas derrubando casas e causando temores, secas terríveis castigando várias regiões, além de epidemias que vão dizimando a população. Será que o bom Deus resolveu mudar de opinião e quer ajudar o povo a destruir esta nação tão rica, ou apenas estaria enviando alguns avisos ao povinho que aqui habita, para que adote procedimento civilizado nas suas relações?
Os brasileiros vivem inquietos com os crimes que têm acontecido por todos os cantos. A menina L.R.S., de 12 anos, foi torturada e mantida em cárcere privado num apartamento em Goiânia. A torturadora, a empresária Sílvia Calabresi, de 42 anos, presa em flagrante em 17 de março, disse apenas que achava estar educando a menina.
No ano passado, uma outra criança, João Hélio Fernandes, de seis anos, fora cruelmente arrastada por sete quilômetros pelas ruas do Rio de Janeiro, presa a um carro guiado por assaltantes em fuga.
Numa recente pesquisa realizada num bairro de São Paulo, pelo menos quinhentas crianças declararam que são vítimas de espancamento no lar. E a maioria tinha, no corpo, marcas dessa perversidade.
E agora a mídia veicula reportagens sobre a morte da pequena Isabella Nardoni, de cinco anos, em 29 de março, supostamente agredida pela madrasta, Anna Carolina Jatobá, e atirada do sexto andar de um edifício pelo pai, Alexandre Nardoni. Deus estaria presente no coração dessa madrasta e desse pai?
Falando desse crime em que supostamente houve a participação da madrasta da menina, é oportuno nos lembrarmos do excelente livro Filhos de pais separados também podem ser felizes, do escritor uberabense Fabiano Hueb de Menezes. O escritor, dentre outros assuntos, trata do relacionamento da madrasta com os enteados. E até sugere a troca da palavra madrasta, pelo neologismo boadrasta, pois existem muitas mulheres que sabem tratar enteados como verdadeiros filhos. É uma boa proposta. Mas em casos como o de Ana Carolina Jatobá, o termo madrasta deve, sem dúvida, permanecer.
E o povinho já está se acostumando a ouvir que a polícia invadiu algum morro e tantas pessoas foram mortas. Tornou-se corriqueira tal notícia. E o povinho também ouve falar de corrupção e já acha tudo normal...
Aquela piadinha sobre a criação do mundo era muito conhecida. O problema é que a brincadeira parece estar se tornando realidade, pois o povinho parece se autodestruir com suas maldades.
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