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Cinquenta anos de Bossa Nova
O que é Bossa Nova? É uma leitura musical. Pode-se aplicar num samba de Jobim, de Geraldo Pereira ou Dorival Caymmi, num bolero, num baião, numa marchinha qualquer. A BN está fora e acima da composição. A partir desse entendimento, não há compositores de Bossa Nova. Quando se diz que ela começou com Jobim e Vinícius de Moraes, labora-se em erro. A Bossa Nova começa com João Gilberto. Só.
A cinqüentenária “Chega de Saudade”, é uma obra que segue a trilha de qualidade das músicas do Jobim que as fazia há já, pelo menos uns dez anos, e Vinícius que também já produzia boas letras há uns trinta. Tão ligada à pessoa de João Gilberto foi a leitura total do “Chega de Saudade” que até o próprio autor, Jobim, que fez os arranjos do disco, quase que se desesperou com as exigências radicais e renovadoras do cantor. Então, Jobim não tinha idéia do que viria a ser o seu “Chega de Saudade”. Assim, ele não pode ser considerado criador de uma coisa que ele desconhecia. Muito menos o Vinícius. Os compositores fizeram mais um belo samba, porém quem fez a única BN foi o João Gilberto.
Bossa Nova é contenç(s)ão vocal, instrumental, rítmica.
A rapaziada de Ipanema nunca fez Bossa Nova. Eles enfiaram o samba num camisa de louco, com uma melodia feita em cima de uma pré-harmonia jazzística e lhe puseram uma letra avessa à tradição triste e simples da brasilidade. Essa rapaziada inventou o samba-jazz para propaganda de cigarros e refrigerantes.
Em quatro anos, a Bossa Nova de Ipanema cansou e se estilhaçou: buscou parcerias na tradição dos morros; agarrou-se no velho folclore imortal; entregou-se de uma vez ao jazz com a avalanche de trios, aproximou-se do erudito e enfiou-se por mil caminhos inclusive pela música de protesto, sem rumo e sem destino.
A única coisa da BN que se espalhou foi a batida do violão.
Haveria outros intérpretes de BN? Sim, Orlan Divo que ficava distante do seu modelo, Nara Leão, Sylvia Telles, Juca Chaves desqualificado pela turma de Ipanema simplesmente porque não era de Ipanema, mas era muito mais BN do que eles todos juntos.
Mas João Gilberto foi tão único e tão leitor que seus raros discos sempre revelam a bossanovidade de velhos sambas que pouco têm a ver com a pseudo BN de Ipanema que desprezou a tradição. Essas regravações de músicas enterradas no passado e revitalizadas analiticamente por João Gilberto correspondem a mais de cinqüenta por cento do seu repertório. Nesses cinqüenta anos, a BN buscou mais fonte lá atrás do que para frente – numa prova de que a nossa música é eterna. As novidades é que se cuidem. A Bossa Nova que faz cinqüenta anos é essa única de João Gilberto que vai acabar quando ele morrer – porque não deixou seguidores à altura.
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