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Livros e Cidadania
O projeto de reforma da Biblioteca Municipal de Uberaba, feito pelo arquiteto Paulo Trajano, reservou modificações para o interior do prédio, preservando a fachada do edifício, que, assim, guardou as características originais.
Uma das novidades desse projeto de reforma é o elevador que permite o acesso do cadeirante aos vários andares, colocando-o diante dos livros e dando-lhe a possibilidade de desfrutar dos vários benefícios oferecidos aos visitantes.
Na noite da inauguração da Biblioteca, centenas de pessoas presentes viram alguns cadeirantes circulando por todo o ambiente do prédio repaginado e puderam constatar a visível alegria deles, antes impedidos de freqüentar os andares superiores da edificação, uma vez que tinham o acesso limitado ao térreo.
Está feito, portanto, o resgate da cidadania de um importante segmento de cidadãos, que agora podem exercitar o seu direito de usar, sem limitações, as vantagens que a Biblioteca Municipal coloca à disposição de todos.
A Academia de Letras do Triângulo Mineiro tem uma estreita ligação com os cadeirantes. A sala que era ocupada pela Academia, no térreo do edifício da Biblioteca, foi muito utilizada para várias reuniões: de partidos políticos, conferencistas, para cursos, encontro de professores e, por muito tempo, para reuniões periódicas de cadeirantes. A ligação com os cadeirantes foi tão estreita, que por pouco a Academia não foi desalojada da sala, certa época.
Numa manhã, tempos idos, um alto assessor de uma empresa pública municipal, em contato com a então Diretora da Biblioteca, fez a ela o seguinte comentário: “A senhora, por obséquio, (O homem era educado, registre-se.) diga ao senhor Mário Salvador para ele desocupar esta sala, pois o Prefeito quer cedê-la aos cadeirantes, a fim de que tenham aqui a sua sede, pois não podem subir escadas.”
Foram mais ou menos esses os termos da... digamos... ordem do assessor. A Diretora retrucou, dizendo que a Academia estava naquela sala amparada por uma Lei. Ao que o assessor replicou, enfaticamente: “Lei pode ser revogada!”
Após a saída do assessor, a Diretora informou-me a respeito do ocorrido, e a minha providência foi ligar para o Presidente da empresa à qual o assessor prestava colaboração. Relatei o fato ao Presidente e recebi a informação: “Não é nada disso! A Diretora não entendeu bem a conversa.” E a explicação seguiu-se por alguns minutos, bem diferente do que o assessor havia conversado.
Com a reforma, a Academia deixou a sala térrea do prédio da Biblioteca, ocupando espaço em andar superior, enquanto os cadeirantes, por sua vez, conseguiram sede própria na cidade. E continuam na sua constante luta pela ocupação dos espaços que a sociedade lhes deve; luta que deve ser apoiada por todos nós. Ainda bem que naquela época a ordem do assessor não foi cumprida!
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